Esta história faz parte do repertório do Grupo Pontos de Fiandeiras - grupo de Teatro e Pesquisa no ABC Paulista.
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sábado, 30 de janeiro de 2016
A história da mulher que nasceu do girassol.
Esta história faz parte do repertório do Grupo Pontos de Fiandeiras - grupo de Teatro e Pesquisa no ABC Paulista.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Entardecer
Brincadeira de
rua – tempo claro e ensolarado da vida, o não-tempo, o existir simples: coisas
que na memória se pintam com aquarela, cores primárias. Era assim, férias, dias
eternos e sem relógio: bicicleta, corrida, bola, cenas de ação e perigo, tijolo
escrevendo na calçada. Eu era da turma dos mais velhos, mas não queria: fazia
de conta que o corpo não mudava e que os chamados da vida não eram pra mim. Um
dia, uma carta. Uma rede de mãos sujas de terra transportou a revelação do amor
que bateu em minha porta sem que eu pudesse abrir. Papel de caderno rasgado e o
inesquecível erro de português: “você quer namorar com migo?”. Tremedeira,
vaidade, raiva: ele tinha estragado tudo. Naquele dia não saí para brincar.
Olhei pela janela e já era noite, meu segredo revelado: estava crescida então.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Dos Mortos
É sabido que
madeira verde resiste ao fogo, cospe sua seiva em espuma até o fim. O velho
cabideiro, recostado no quarto escuro, também sabe e, se ali ainda está, é mais
por esquecimento que por necessidade. Pudesse ele ir ao fogo, esgotaria-se em
minutos. Em sua memória penduram-se apenas três chapéus: homens da força, da
política, da genealogia orgulhosa. Somente para estes houve espelho, como um
quadro que refletia o mesmo rosto, no passar dos anos. Houve também aquele que
não se soube o nome, o doente, o de se esconder – pendurado em um nome de
família que não lhe servia de nada. Das mulheres, duas. Um gancho quebrado nos
dirá de alguma Maria, corpo doído, mãe sem rosto: apenas organizando bengalas.
Ana foi quem abriu o guarda-chuva e saiu, pregos enferrujados que atravessam o
corpo do velho móvel, empoeirado como qualquer outono. Lá fora, outras folhas
caem, indiferentes. Cobrem segredos que fizeram longo caminho de passos sobre o
assoalho.
Mortadela com Guaraná
Minha tia
Fátima faleceu um ano antes do meu nascimento. Dela, conheço os olhos vesgos
por fotografias, corpo magro, doente desde criança, histórias dos outros –
viveu certa da morte. Nela, reconheço hábitos. Em minha casa é comum bananas na
fruteira, apenas, como era na casa da minha mãe, porque assim foi na casa da
minha avó: de bananas Fátima não gostava, então podiam comer sem que nela se
fizesse vontade. Nos últimos dias de vida, internada pela insuficiência renal
crônica, ela mentiu à minha mãe dizendo que o médico havia autorizado o lanche
de mortadela com guaraná – atendida em seu pedido último, ritualizou para
sempre os nossos lanches de sexta-feira, que misteriosamente ganharam o sabor
de outra vida.
Balão
Foi ontem, no
tempo da criatividade, e há alguns anos, no tempo do relógio, que eu menina sonhava
viajar num balão, subir indefinidamente pelas nuvens até bater no teto do céu.
Pensava, eu, se o teto do céu era de madeira ou de telhas de barro. E pensava,
ainda, se algo haveria para além do teto celeste: curiosidades que inquietavam
minha pouca existência e me levavam ao desejo de desligar os pensamentos.
Pronto, algo novo despertava meu interesse: como faria para desligar meus
pensamentos? Seria possível encontrar em algum lugar de mim um botão? E
descobri que o esforço para não pensar em nada era muito maior, então voltava
pera meu balão e viajava no espaço-tempo dos grandes mistérios da humanidade: a
luz, a chuva, as estrelas e a lua, sempre ali pendurada no teto do céu.
sábado, 1 de novembro de 2014
Esboço de amor número um.
De alguma forma já se faziam desfeitos os laços, pois então caminhavam sós. Mas o amor era, ainda e com boa promessa de sempre, a água por onde navegavam, sem esperança de terra firme.
Ela enviava fotos, sem dedicatórias, de todas as paisagens onde os olhos pousavam de saudade.
Ele as recebia, em calado reconhecimento dos sentidos.
Cada fotografia enviada e recebida era o recordar de tatos, odores e audições: tudo o que não se poderia reter em imagem qualquer, mas que se fazia desperto ao foco de um olhar dedicado a não esquecer, a compartilhar ângulos e tons de modo gêmeo: como almas, por tanto tempo quanto a vida ainda as tivesse.
Ela enviava fotos, sem dedicatórias, de todas as paisagens onde os olhos pousavam de saudade.
Ele as recebia, em calado reconhecimento dos sentidos.
Cada fotografia enviada e recebida era o recordar de tatos, odores e audições: tudo o que não se poderia reter em imagem qualquer, mas que se fazia desperto ao foco de um olhar dedicado a não esquecer, a compartilhar ângulos e tons de modo gêmeo: como almas, por tanto tempo quanto a vida ainda as tivesse.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Fotografia
Eram cinco irmãos, no princípio, quando se podia sentir o cheiro do éter.
Um trajava-se com clareza, abrindo espaços sem medo, o outro vestia-se de cautelosa sobriedade, sem tanta luz - pés no chão. Entre eles meu pai, nem preto nem branco, aquele que daria ao público o necessário equilíbrio para inspirar confiança, e meus tios mais novos: mesclados, divididos, enfadados, aquela luz do meio dia sobre o toldo vermelho, que daria uma ótima vela para o meu barco. Naquele espaço de homens, onde o degrau era mais baixo, não foram chamadas as mulheres: mãe, avó e irmã que ficaram por trás das paredes segurando o telhado, quando de algum modo compreendi meu destino anunciado sem demolição, apenas com tinta nova.
Um trajava-se com clareza, abrindo espaços sem medo, o outro vestia-se de cautelosa sobriedade, sem tanta luz - pés no chão. Entre eles meu pai, nem preto nem branco, aquele que daria ao público o necessário equilíbrio para inspirar confiança, e meus tios mais novos: mesclados, divididos, enfadados, aquela luz do meio dia sobre o toldo vermelho, que daria uma ótima vela para o meu barco. Naquele espaço de homens, onde o degrau era mais baixo, não foram chamadas as mulheres: mãe, avó e irmã que ficaram por trás das paredes segurando o telhado, quando de algum modo compreendi meu destino anunciado sem demolição, apenas com tinta nova.
Alfazema
Hoje encontrei com uma moça que há anos não via. No bege da fotografia as lembranças foram recolorindo com vermelho e verde os contornos da juventude e da esperança. Como se meus pés adentrassem outra vez a madeira, ensaiando voltas ao som da radiola, reconheci aquela menina: semente do que sou. Entretanto, árvore em si mesma, espalhando suas folhas ao sabor do vento. Quantos passos caminhei até fechar a porta? Seus olhos me fitam desejosos de futuro, os meus a envolvem com calmaria de perdão: nesse encontro ecoam vozes de porcelana, a xícara caída anunciando a partida, a vida balançando nos ramos da alfazema.
Sinaleiro
Do requintado e longo processo do Criador existo, como outro qualquer, mas extraído da terra por humanas mãos nasci, com o destino certo de ampliar seus olhos, humanos. Esquecido ao ar retorno ao princípio, revelando aos poucos a ferrugem que sempre fui. Suspenso neste quadro, meu olho trincado enxerga a moça, que humana partiu, enquanto persisto na forma que ainda me define. Som do trem, braço elevado e o crepitar de um coração emprestado: a fragilidade da vida, da moça, humana, desfeita na rudeza do ferro, o mesmo que sou, moldado e definido para servir. Na amplitude do último olhar, caído na terra que não me absorvia fiquei, sem chama, ciente do meu estilhaço, do ranger dos freios sobre os trilhos, testemunha, desde que esse mundo se fez em ferro, até mesmo no sangue, humano.
Separação
Ah, lugar de antes, tua lembrança não preenche. Como o amor que respira por uma varanda cheia de grades, deitam-se palavras na amarela sombra do tempo.
domingo, 24 de agosto de 2014
Desenho
Conjunto de retas não paralelas, sou, e uma luz clara no cabelo que só se pode ver de muito perto. Tons de misturas de solos, a quem busca terra firme, e contida inundação no esboço do sorriso. Retas não paralelas, sou, carrego no peito fé e memória, germino no giro do meu ventre. Meus olhos estão abertos, vendo os teus, estão muito abertos e veem os teus. Minhas tatuagens se desenham do lado avesso da pele, já descobri um imenso dragão. Retas não paralelas fazem portão?
Gema
Era assim, eu e ele, nessa ordem. Eu tinha mãe, ele madrasta. Eu branca, ele negro, um mais sujo que o outro, pés descalços. Éramos os mais velhos da turma, ele com vantagem de exatos quatro meses, eu com a vantagem de mais irmãos. Ele sempre dizia que o nome do amor da sua vida era o meu e eu nunca pensei que seu amor fosse meu. Na memória, a gema cheia de sal pela disputa de quem poderia suportar mais - rimos, sem suportar, cúmplices na trégua e na derrota que veio de fora: agora vocês vão comer esses ovos até o fim. Éramos assim, eu, ele, gema amarela feito sol. Veio a mudança, do caminhão via meu amigo ficando para trás, queria que ele parasse de chorar. Nunca entendi seu nome, já nem preciso, é como riso de criança, sem rumo, rio.
domingo, 26 de maio de 2013
Odisseia
Sou Penélope,
aguardo o regresso de Ulisses
cultivando verdades inconciliáveis
e tecendo manto fúnebre
para os desejos que afloram e despedaçam
ante a fúria do imenso olho do Ciclope.
Sou Penélope,
lançada nesta desconhecida e reconhecida Ítaca
desfazendo a trama da espera
refazendo a trama do encontro
desfeita pelo movimento das ondas de um mar distante.
Sou eu o mesmo fio que eu tecia
antes ficar, antes partir, nessa odisseia do lado de mim.
Quiseram os deuses que fosse assim?
aguardo o regresso de Ulisses
cultivando verdades inconciliáveis
e tecendo manto fúnebre
para os desejos que afloram e despedaçam
ante a fúria do imenso olho do Ciclope.
Sou Penélope,
lançada nesta desconhecida e reconhecida Ítaca
desfazendo a trama da espera
refazendo a trama do encontro
desfeita pelo movimento das ondas de um mar distante.
Sou eu o mesmo fio que eu tecia
antes ficar, antes partir, nessa odisseia do lado de mim.
Quiseram os deuses que fosse assim?
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Movimento
Rotineiramente rodopiava
em sua caixinha de música
em sua caixinha de música
a bailarina
cheia de vida, a bela senhora
ciente do seu dever
de graça e perfeição
acompanhada pelos olhos do menino
olhares de infindáveis perguntas
e despropositado querer bem.
Assim viviam
a bailarina e o menino
um conto de amor pueril
despetalando cada minuto do som
que unificava seus mundos tão distantes.
Aproximou-se sorrateiramente o Tempo
com braços abertos
oferecendo ao menino caminho
que aceitou, crescendo,
enquanto girava a distante bailarina
buscando em cada volta encontrar a estrada
por onde o Tempo partia o seu amor.
Saltou a bailarina
da sua confortável dança,
ousando pedir ao Tempo que também lhe oferecesse caminhar
conheceu assim movimentos que não sabia acompanhar
dança que se chamava mudança
e outros pequenos passos chamados transformação.
A bailarina teve medo das pernas que caminhavam
e perguntava - deus, posso voltar?
e quando não suportou a noite que firmava
deus lhe ofereceu mãos de homem
a lhe sustentarem pelo ar
não sabia aonde seria levada
e se sentia envergonhada pelo caminho que não ousara realizar
acolhida em mãos frias que lhe transportavam
dormiu e sonhou com o Tempo,
que lhe dizia com a mesma voz - cuidado, coragem
o mundo gira com a mesma velocidade da sua caixa, bailarina!
Quando abriu-se o dia
estava em seu sempre lugar
e de frente aos seus olhos, os olhos do menino
que com mãos de homem davam corda ao seu dançar
lentamente deslizando
aceitou com justiça e respeito a oferta do Tempo
e em cada nova volta seus olhos fixavam compreensão
cada conhecida nota vibrava diferente em seu coração
e infindáveis respostas lhe eram trazidas pelos olhos do eterno menino.
Os dois aprenderam então,
que amor também é razão
diferentes trajetórias
dão-se as mãos
a bailarina girando, feliz
em cada movimento de chegar e partir
e o menino - homem feliz
em cada retorno, chegar, partir.
(espaço de dentro, infinitamente maior que o de fora - aventura solitária do descobrir e o grato desejo do partilhar).
domingo, 25 de novembro de 2012
Sempiterno
Jogo infinito de palavras que
sustentam o meu ser. Deseja, mas deleta no parágrafo seguinte. Fossem ainda os
tempos da datilografia e papéis amassados subiriam pelas pernas.
Quero história singela, mas
apenas reconheço as vontades que ela traz.
Singelo chão de terra e roupa
branca empoeirando no varal. Casa simples, além da porta uma janela que avista
estrada, longa estrada esperando alguém que vem de longe, trazendo na pequena mala
notícias de mundo distante.
Tem cachorro no quintal (no meu sempre
haverá) e a criança brinca com a bacia cheia d’água perto da árvore.
A criança suja a água com a terra
e a terra pinta a criança com tinta fresca.
O olhar se lança pela janela
esperando o amor que vem na estrada, cantarolando música chiada e triste. O
olhar se deita no chão sobre pés descalços e sujos. Pássaros voam em constante
adeus enquanto a estrada turva os pés molhados na bacia. Pinto-me com as mesmas
cores da criança. Nela vários tons, em mim tom de alegria silenciosa.
Vento quente: limpa poeira antiga
e traz a nova: o mundo agora está completo.
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