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sábado, 30 de janeiro de 2016

A história da mulher que nasceu do girassol.

 Essa é uma história que começou antes do tempo do relógio, quando o tempo era contado apenas pelas folhas que caíam das árvores, ou pelo movimento das águas que circulavam entre a terra e o céu. Essa história é a história de uma mulher, que nasceu antes da maçã e que não saiu da costela de Adão, mas de dentro de um girassol. Pequena e quente, ela dormia enquanto a imensa flor girava em busca dos raios da grande estrela. “Ai, que sono!” dizia a mulher-menina, dentro da sua flor amarela, ainda sem querer nascer. E quando vinha a noite, o girassol fechava suas pétalas, escondendo seu tesouro da lua curiosa. “Ei, girassol: me mostre o que guarda aí”, dizia a lua com um meio sorriso; “guardo um segredo de vida”, respondia o girassol, cuidadoso. E no eterno ciclo de amanhecer – entardecer – anoitecer, a mulher se fez e nasceu, escorregou pelas pétalas do girassol e tocou pela primeira vez o chão, que a segurou pelo resto dos tempos. Ao anoitecer, a lua veio conhecer o segredo há tanto tempo guardado, e se encantou: prometeu à mulher que dançaria com ela pela eternidade, e é por isso que até hoje a lua baila no céu. A mulher, então, nascida do girassol agora girava também a lua, e sua presença na terra movimentava o céu, controlando o nascer e o morrer dos dias. Com suas mãos, fez nascer as sementes que fizeram alimento, e das suas lágrimas, a água que lavou o chão e as dores de todos os seres. Dizem que em outros campos, outros girassóis cuidam de outros bebês-meninas, mas tudo em segredo. E que a lua, silenciosa, some no céu quando visita outros berçários. Mistérios de antes do tempo do relógio, a voz da mulher que canta e encanta com um sopro de vida a força da natureza, conta essa história que fala de mim e de você.




Esta história faz parte do repertório do Grupo Pontos de Fiandeiras - grupo de Teatro e Pesquisa no ABC Paulista.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Entardecer

Brincadeira de rua – tempo claro e ensolarado da vida, o não-tempo, o existir simples: coisas que na memória se pintam com aquarela, cores primárias. Era assim, férias, dias eternos e sem relógio: bicicleta, corrida, bola, cenas de ação e perigo, tijolo escrevendo na calçada. Eu era da turma dos mais velhos, mas não queria: fazia de conta que o corpo não mudava e que os chamados da vida não eram pra mim. Um dia, uma carta. Uma rede de mãos sujas de terra transportou a revelação do amor que bateu em minha porta sem que eu pudesse abrir. Papel de caderno rasgado e o inesquecível erro de português: “você quer namorar com migo?”. Tremedeira, vaidade, raiva: ele tinha estragado tudo. Naquele dia não saí para brincar. Olhei pela janela e já era noite, meu segredo revelado: estava crescida então.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Dos Mortos

É sabido que madeira verde resiste ao fogo, cospe sua seiva em espuma até o fim. O velho cabideiro, recostado no quarto escuro, também sabe e, se ali ainda está, é mais por esquecimento que por necessidade. Pudesse ele ir ao fogo, esgotaria-se em minutos. Em sua memória penduram-se apenas três chapéus: homens da força, da política, da genealogia orgulhosa. Somente para estes houve espelho, como um quadro que refletia o mesmo rosto, no passar dos anos. Houve também aquele que não se soube o nome, o doente, o de se esconder – pendurado em um nome de família que não lhe servia de nada. Das mulheres, duas. Um gancho quebrado nos dirá de alguma Maria, corpo doído, mãe sem rosto: apenas organizando bengalas. Ana foi quem abriu o guarda-chuva e saiu, pregos enferrujados que atravessam o corpo do velho móvel, empoeirado como qualquer outono. Lá fora, outras folhas caem, indiferentes. Cobrem segredos que fizeram longo caminho de passos sobre o assoalho.


Mortadela com Guaraná

Minha tia Fátima faleceu um ano antes do meu nascimento. Dela, conheço os olhos vesgos por fotografias, corpo magro, doente desde criança, histórias dos outros – viveu certa da morte. Nela, reconheço hábitos. Em minha casa é comum bananas na fruteira, apenas, como era na casa da minha mãe, porque assim foi na casa da minha avó: de bananas Fátima não gostava, então podiam comer sem que nela se fizesse vontade. Nos últimos dias de vida, internada pela insuficiência renal crônica, ela mentiu à minha mãe dizendo que o médico havia autorizado o lanche de mortadela com guaraná – atendida em seu pedido último, ritualizou para sempre os nossos lanches de sexta-feira, que misteriosamente ganharam o sabor de outra vida. 

Balão


Foi ontem, no tempo da criatividade, e há alguns anos, no tempo do relógio, que eu menina sonhava viajar num balão, subir indefinidamente pelas nuvens até bater no teto do céu. Pensava, eu, se o teto do céu era de madeira ou de telhas de barro. E pensava, ainda, se algo haveria para além do teto celeste: curiosidades que inquietavam minha pouca existência e me levavam ao desejo de desligar os pensamentos. Pronto, algo novo despertava meu interesse: como faria para desligar meus pensamentos? Seria possível encontrar em algum lugar de mim um botão? E descobri que o esforço para não pensar em nada era muito maior, então voltava pera meu balão e viajava no espaço-tempo dos grandes mistérios da humanidade: a luz, a chuva, as estrelas e a lua, sempre ali pendurada no teto do céu.

sábado, 1 de novembro de 2014

Esboço de amor número um.

De alguma forma já se faziam desfeitos os laços, pois então caminhavam sós. Mas o amor era, ainda e com boa promessa de sempre, a água por onde navegavam, sem esperança de terra firme.

Ela enviava fotos, sem dedicatórias, de todas as paisagens onde os olhos pousavam de saudade.
Ele as recebia, em calado reconhecimento dos sentidos.

Cada fotografia enviada e recebida era o recordar de tatos, odores e audições: tudo o que não se poderia reter em imagem qualquer, mas que se fazia desperto ao foco de um olhar dedicado a não esquecer, a compartilhar ângulos e tons de modo gêmeo: como almas, por tanto tempo quanto a vida ainda as tivesse.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Fotografia

Eram cinco irmãos, no princípio, quando se podia sentir o cheiro do éter.
Um trajava-se com clareza, abrindo espaços sem medo, o outro vestia-se de cautelosa sobriedade, sem tanta luz - pés no chão. Entre eles meu pai, nem preto nem branco, aquele que daria ao público o necessário equilíbrio para inspirar confiança, e meus tios mais novos: mesclados, divididos, enfadados, aquela luz do meio dia sobre o toldo vermelho, que daria uma ótima vela para o meu barco. Naquele espaço de homens, onde o degrau era mais baixo, não foram chamadas as mulheres: mãe, avó e irmã que ficaram por trás das paredes segurando o telhado, quando de algum modo compreendi meu destino anunciado sem demolição, apenas com tinta nova.

Alfazema

Hoje encontrei com uma moça que há anos não via. No bege da fotografia as lembranças foram recolorindo com vermelho e verde os contornos da juventude e da esperança. Como se meus pés adentrassem outra vez a madeira, ensaiando voltas ao som da radiola, reconheci aquela menina: semente do que sou. Entretanto, árvore em si mesma, espalhando suas folhas ao sabor do vento. Quantos passos caminhei até fechar a porta? Seus olhos me fitam desejosos de futuro, os meus a envolvem com calmaria de perdão: nesse encontro ecoam vozes de porcelana, a xícara caída anunciando a partida, a vida balançando nos ramos da alfazema.

Sinaleiro

Do requintado e longo processo do Criador existo, como outro qualquer, mas extraído da terra por humanas mãos nasci, com o destino certo de ampliar seus olhos, humanos. Esquecido ao ar retorno ao princípio, revelando aos poucos a ferrugem que sempre fui. Suspenso neste quadro, meu olho trincado enxerga a moça, que humana partiu, enquanto persisto na forma que ainda me define. Som do trem, braço elevado e o crepitar de um coração emprestado: a fragilidade da vida, da moça, humana, desfeita na rudeza do ferro, o mesmo que sou, moldado e definido para servir. Na amplitude do último olhar, caído na terra que não me absorvia fiquei, sem chama, ciente do meu estilhaço, do ranger dos freios sobre os trilhos, testemunha, desde que esse mundo se fez em ferro, até mesmo no sangue, humano.

Separação

Ah, lugar de antes, tua lembrança não preenche. Como o amor que respira por uma varanda cheia de grades, deitam-se palavras na amarela sombra do tempo.

domingo, 24 de agosto de 2014

Desenho

Conjunto de retas não paralelas, sou, e uma luz clara no cabelo que só se pode ver de muito perto. Tons de misturas de solos, a quem busca terra firme, e contida inundação no esboço do sorriso. Retas não paralelas, sou, carrego no peito fé e memória, germino no giro do meu ventre. Meus olhos estão abertos, vendo os teus, estão muito abertos e veem os teus. Minhas tatuagens se desenham do lado avesso da pele, já descobri um imenso dragão. Retas não paralelas fazem portão?

Gema

Era assim, eu e ele, nessa ordem. Eu tinha mãe, ele madrasta. Eu branca, ele negro, um mais sujo que o outro, pés descalços. Éramos os mais velhos da turma, ele com vantagem de exatos quatro meses, eu com a vantagem de mais irmãos. Ele sempre dizia que o nome do amor da sua vida era o meu e eu nunca pensei que seu amor fosse meu. Na memória, a gema cheia de sal pela disputa de quem poderia suportar mais - rimos, sem suportar, cúmplices na trégua e na derrota que veio de fora: agora vocês vão comer esses ovos até o fim. Éramos assim, eu, ele, gema amarela feito sol. Veio a mudança, do caminhão via meu amigo ficando para trás, queria que ele parasse de chorar. Nunca entendi seu nome, já nem preciso, é como riso de criança, sem rumo, rio.

domingo, 26 de maio de 2013

Odisseia

Sou Penélope,
aguardo o regresso de Ulisses
cultivando verdades inconciliáveis
e tecendo manto fúnebre
para os desejos que afloram e despedaçam
ante a fúria do imenso olho do Ciclope.
Sou Penélope,
lançada nesta desconhecida e reconhecida Ítaca
desfazendo a trama da espera
refazendo a trama do encontro
desfeita pelo movimento das ondas de um mar distante.
Sou eu o mesmo fio que eu tecia
antes ficar, antes partir, nessa odisseia do lado de mim.
Quiseram os deuses que fosse assim?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Movimento

Rotineiramente rodopiava
em sua caixinha de música
a bailarina
cheia de vida, a bela senhora
ciente do seu dever
de graça e perfeição
acompanhada pelos olhos do menino
olhares de infindáveis perguntas
e despropositado querer bem.

Assim viviam
a bailarina e o menino
um conto de amor pueril
despetalando cada minuto do som
que unificava seus mundos tão distantes.

Aproximou-se sorrateiramente o Tempo
com braços abertos
oferecendo ao menino caminho
que aceitou, crescendo,
enquanto girava a distante bailarina
buscando em cada volta encontrar a estrada
por onde o Tempo partia o seu amor.

Saltou a bailarina
da sua confortável dança,
ousando pedir ao Tempo que também lhe oferecesse caminhar
conheceu assim movimentos que não sabia acompanhar
dança que se chamava mudança
e outros pequenos passos chamados transformação.

A bailarina teve medo das pernas que caminhavam
e perguntava - deus, posso voltar?
e quando não suportou a noite que firmava
deus lhe ofereceu mãos de homem 
a lhe sustentarem pelo ar
não sabia aonde seria levada
e se sentia envergonhada pelo caminho que não ousara realizar
acolhida em mãos frias que lhe transportavam 
dormiu e sonhou com o Tempo,
que lhe dizia com a mesma voz - cuidado, coragem
o mundo gira com a mesma velocidade da sua caixa, bailarina!

Quando abriu-se o dia
estava em seu sempre lugar
e de frente aos seus olhos, os olhos do menino
que com mãos de homem davam corda ao seu dançar
lentamente deslizando 
aceitou com justiça e respeito a oferta do Tempo 
e em cada nova volta seus olhos fixavam compreensão
cada conhecida nota vibrava diferente em seu coração
e infindáveis respostas lhe eram trazidas pelos olhos do eterno menino.

Os dois aprenderam então,
que amor também é razão
diferentes trajetórias
dão-se as mãos
a bailarina girando, feliz
em cada movimento de chegar e partir
e o menino - homem feliz
em cada retorno, chegar, partir.

(espaço de dentro, infinitamente maior que o de fora - aventura solitária do descobrir e o grato desejo do partilhar).

domingo, 25 de novembro de 2012

Sempiterno

Jogo infinito de palavras que sustentam o meu ser. Deseja, mas deleta no parágrafo seguinte. Fossem ainda os tempos da datilografia e papéis amassados subiriam pelas pernas.


Quero história singela, mas apenas reconheço as vontades que ela traz. 

Singelo chão de terra e roupa branca empoeirando no varal. Casa simples, além da porta uma janela que avista estrada, longa estrada esperando alguém que vem de longe, trazendo na pequena mala notícias de mundo distante.
Tem cachorro no quintal (no meu sempre haverá) e a criança brinca com a bacia cheia d’água perto da árvore.


A criança suja a água com a terra e a terra pinta a criança com tinta fresca.


O olhar se lança pela janela esperando o amor que vem na estrada, cantarolando música chiada e triste. O olhar se deita no chão sobre pés descalços e sujos. Pássaros voam em constante adeus enquanto a estrada turva os pés molhados na bacia. Pinto-me com as mesmas cores da criança. Nela vários tons, em mim tom de alegria silenciosa.


Vento quente: limpa poeira antiga e traz a nova: o mundo agora está completo.