sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Fotografia

Eram cinco irmãos, no princípio, quando se podia sentir o cheiro do éter.
Um trajava-se com clareza, abrindo espaços sem medo, o outro vestia-se de cautelosa sobriedade, sem tanta luz - pés no chão. Entre eles meu pai, nem preto nem branco, aquele que daria ao público o necessário equilíbrio para inspirar confiança, e meus tios mais novos: mesclados, divididos, enfadados, aquela luz do meio dia sobre o toldo vermelho, que daria uma ótima vela para o meu barco. Naquele espaço de homens, onde o degrau era mais baixo, não foram chamadas as mulheres: mãe, avó e irmã que ficaram por trás das paredes segurando o telhado, quando de algum modo compreendi meu destino anunciado sem demolição, apenas com tinta nova.

Alfazema

Hoje encontrei com uma moça que há anos não via. No bege da fotografia as lembranças foram recolorindo com vermelho e verde os contornos da juventude e da esperança. Como se meus pés adentrassem outra vez a madeira, ensaiando voltas ao som da radiola, reconheci aquela menina: semente do que sou. Entretanto, árvore em si mesma, espalhando suas folhas ao sabor do vento. Quantos passos caminhei até fechar a porta? Seus olhos me fitam desejosos de futuro, os meus a envolvem com calmaria de perdão: nesse encontro ecoam vozes de porcelana, a xícara caída anunciando a partida, a vida balançando nos ramos da alfazema.

Sinaleiro

Do requintado e longo processo do Criador existo, como outro qualquer, mas extraído da terra por humanas mãos nasci, com o destino certo de ampliar seus olhos, humanos. Esquecido ao ar retorno ao princípio, revelando aos poucos a ferrugem que sempre fui. Suspenso neste quadro, meu olho trincado enxerga a moça, que humana partiu, enquanto persisto na forma que ainda me define. Som do trem, braço elevado e o crepitar de um coração emprestado: a fragilidade da vida, da moça, humana, desfeita na rudeza do ferro, o mesmo que sou, moldado e definido para servir. Na amplitude do último olhar, caído na terra que não me absorvia fiquei, sem chama, ciente do meu estilhaço, do ranger dos freios sobre os trilhos, testemunha, desde que esse mundo se fez em ferro, até mesmo no sangue, humano.

Separação

Ah, lugar de antes, tua lembrança não preenche. Como o amor que respira por uma varanda cheia de grades, deitam-se palavras na amarela sombra do tempo.