sexta-feira, 24 de julho de 2015

Entardecer

Brincadeira de rua – tempo claro e ensolarado da vida, o não-tempo, o existir simples: coisas que na memória se pintam com aquarela, cores primárias. Era assim, férias, dias eternos e sem relógio: bicicleta, corrida, bola, cenas de ação e perigo, tijolo escrevendo na calçada. Eu era da turma dos mais velhos, mas não queria: fazia de conta que o corpo não mudava e que os chamados da vida não eram pra mim. Um dia, uma carta. Uma rede de mãos sujas de terra transportou a revelação do amor que bateu em minha porta sem que eu pudesse abrir. Papel de caderno rasgado e o inesquecível erro de português: “você quer namorar com migo?”. Tremedeira, vaidade, raiva: ele tinha estragado tudo. Naquele dia não saí para brincar. Olhei pela janela e já era noite, meu segredo revelado: estava crescida então.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Dos Mortos

É sabido que madeira verde resiste ao fogo, cospe sua seiva em espuma até o fim. O velho cabideiro, recostado no quarto escuro, também sabe e, se ali ainda está, é mais por esquecimento que por necessidade. Pudesse ele ir ao fogo, esgotaria-se em minutos. Em sua memória penduram-se apenas três chapéus: homens da força, da política, da genealogia orgulhosa. Somente para estes houve espelho, como um quadro que refletia o mesmo rosto, no passar dos anos. Houve também aquele que não se soube o nome, o doente, o de se esconder – pendurado em um nome de família que não lhe servia de nada. Das mulheres, duas. Um gancho quebrado nos dirá de alguma Maria, corpo doído, mãe sem rosto: apenas organizando bengalas. Ana foi quem abriu o guarda-chuva e saiu, pregos enferrujados que atravessam o corpo do velho móvel, empoeirado como qualquer outono. Lá fora, outras folhas caem, indiferentes. Cobrem segredos que fizeram longo caminho de passos sobre o assoalho.


Mortadela com Guaraná

Minha tia Fátima faleceu um ano antes do meu nascimento. Dela, conheço os olhos vesgos por fotografias, corpo magro, doente desde criança, histórias dos outros – viveu certa da morte. Nela, reconheço hábitos. Em minha casa é comum bananas na fruteira, apenas, como era na casa da minha mãe, porque assim foi na casa da minha avó: de bananas Fátima não gostava, então podiam comer sem que nela se fizesse vontade. Nos últimos dias de vida, internada pela insuficiência renal crônica, ela mentiu à minha mãe dizendo que o médico havia autorizado o lanche de mortadela com guaraná – atendida em seu pedido último, ritualizou para sempre os nossos lanches de sexta-feira, que misteriosamente ganharam o sabor de outra vida. 

Balão


Foi ontem, no tempo da criatividade, e há alguns anos, no tempo do relógio, que eu menina sonhava viajar num balão, subir indefinidamente pelas nuvens até bater no teto do céu. Pensava, eu, se o teto do céu era de madeira ou de telhas de barro. E pensava, ainda, se algo haveria para além do teto celeste: curiosidades que inquietavam minha pouca existência e me levavam ao desejo de desligar os pensamentos. Pronto, algo novo despertava meu interesse: como faria para desligar meus pensamentos? Seria possível encontrar em algum lugar de mim um botão? E descobri que o esforço para não pensar em nada era muito maior, então voltava pera meu balão e viajava no espaço-tempo dos grandes mistérios da humanidade: a luz, a chuva, as estrelas e a lua, sempre ali pendurada no teto do céu.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Amargo é o gosto do pó:
o mesmo pó
que obstrui as narinas
arranha as articulações
e suja as vidraças das retinas.
Amargo, como todo bom remédio.
Ilusão é isso, ilusão é um sonho que vira pó.