quinta-feira, 23 de julho de 2015

Mortadela com Guaraná

Minha tia Fátima faleceu um ano antes do meu nascimento. Dela, conheço os olhos vesgos por fotografias, corpo magro, doente desde criança, histórias dos outros – viveu certa da morte. Nela, reconheço hábitos. Em minha casa é comum bananas na fruteira, apenas, como era na casa da minha mãe, porque assim foi na casa da minha avó: de bananas Fátima não gostava, então podiam comer sem que nela se fizesse vontade. Nos últimos dias de vida, internada pela insuficiência renal crônica, ela mentiu à minha mãe dizendo que o médico havia autorizado o lanche de mortadela com guaraná – atendida em seu pedido último, ritualizou para sempre os nossos lanches de sexta-feira, que misteriosamente ganharam o sabor de outra vida. 

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