Minha tia
Fátima faleceu um ano antes do meu nascimento. Dela, conheço os olhos vesgos
por fotografias, corpo magro, doente desde criança, histórias dos outros –
viveu certa da morte. Nela, reconheço hábitos. Em minha casa é comum bananas na
fruteira, apenas, como era na casa da minha mãe, porque assim foi na casa da
minha avó: de bananas Fátima não gostava, então podiam comer sem que nela se
fizesse vontade. Nos últimos dias de vida, internada pela insuficiência renal
crônica, ela mentiu à minha mãe dizendo que o médico havia autorizado o lanche
de mortadela com guaraná – atendida em seu pedido último, ritualizou para
sempre os nossos lanches de sexta-feira, que misteriosamente ganharam o sabor
de outra vida.
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