em sua caixinha de música
a bailarina
cheia de vida, a bela senhora
ciente do seu dever
de graça e perfeição
acompanhada pelos olhos do menino
olhares de infindáveis perguntas
e despropositado querer bem.
Assim viviam
a bailarina e o menino
um conto de amor pueril
despetalando cada minuto do som
que unificava seus mundos tão distantes.
Aproximou-se sorrateiramente o Tempo
com braços abertos
oferecendo ao menino caminho
que aceitou, crescendo,
enquanto girava a distante bailarina
buscando em cada volta encontrar a estrada
por onde o Tempo partia o seu amor.
Saltou a bailarina
da sua confortável dança,
ousando pedir ao Tempo que também lhe oferecesse caminhar
conheceu assim movimentos que não sabia acompanhar
dança que se chamava mudança
e outros pequenos passos chamados transformação.
A bailarina teve medo das pernas que caminhavam
e perguntava - deus, posso voltar?
e quando não suportou a noite que firmava
deus lhe ofereceu mãos de homem
a lhe sustentarem pelo ar
não sabia aonde seria levada
e se sentia envergonhada pelo caminho que não ousara realizar
acolhida em mãos frias que lhe transportavam
dormiu e sonhou com o Tempo,
que lhe dizia com a mesma voz - cuidado, coragem
o mundo gira com a mesma velocidade da sua caixa, bailarina!
Quando abriu-se o dia
estava em seu sempre lugar
e de frente aos seus olhos, os olhos do menino
que com mãos de homem davam corda ao seu dançar
lentamente deslizando
aceitou com justiça e respeito a oferta do Tempo
e em cada nova volta seus olhos fixavam compreensão
cada conhecida nota vibrava diferente em seu coração
e infindáveis respostas lhe eram trazidas pelos olhos do eterno menino.
Os dois aprenderam então,
que amor também é razão
diferentes trajetórias
dão-se as mãos
a bailarina girando, feliz
em cada movimento de chegar e partir
e o menino - homem feliz
em cada retorno, chegar, partir.
(espaço de dentro, infinitamente maior que o de fora - aventura solitária do descobrir e o grato desejo do partilhar).