quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Meio-dia

Não é o mesmo céu e nem se pode para ele olhar impunemente – é ele quem me vê, na inteireza das imperfeições.
Pupila imensa no olho do céu:
revela as cores das pedras,
revela as cores das flores,
revela as cores dos bichos
e adentra os espaços com sua luz incisiva e vagarosa
pelas frestas da boca e da pele.
Oráculo de coração aberto: a voz sussurrada pelo deus tempo pinta de vermelho os nossos olhos, enquanto a vida pulsa sem antes, nem depois.

(Tua presença é como o Sol ao meio-dia).

"Meio-dia é o horário correspondente a doze horas, é baseado quando o Sol na linha do equador no equinócio do outono e da primavera está perpendicular, fazendo um ângulo reto com a tangente da linha do equador e a qualquer meridiano terrestre".

domingo, 27 de março de 2016

Eva

Ela tinha algo como um animal
enjaulado e indócil,
mas de tanto doer a cela do coração
abriu as portas.

O animal, que preso gritava
agora a defende.

Colocou-se a frente das pedras enviadas à Madalena
e recusou a oferta:
"Não gosto de maçã, prefiro outra".

E riram, a mulher e a serpente.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Partida

Amor, sim. Mas te deixo aqui.
Corto as linhas das minhas mãos
e desfaço as tranças do cabelo.
Será assim:

um rio que corre

um pássaro que voa

constelações

e mistério

e saudade (sim).

Seja um tanto de esquecimento
que renove o ar
e expulse o líquido já velho
das espumas dos meus pulmões.

Mais brisa, menos brasa: de agora em diante, meu amor: envelhecer.

Envelhecer

O corpo atravessa o tempo
rugas - riscos - rusgas
sobre um mapa de pele.

Rios de sonhos
Veredas da sobrevivência
Planícies de onde se vê outro horizonte,
invisível para a juventude dos olhos.

O menino que sonhava ser bailarino
pegou em armas
mas dança dentro do frágil coração.

Vestido branco
rodopiando
lembra de quando nasceu algodão.

Acessos

Entre nós tanto mar
                   tanto abismo
                   tanta selva

Caminhos de areia que escorrem na ampulheta.

Quantas serão as distâncias
no estreito eu - tempo - você?
Quanto se podem alargar
                   as ruas
                   as avenidas
                   os prédios
                   os automóveis
                   ?

Contudo, estamos debaixo do mesmo, e ainda, vermelho céu.

Vou - me fazendo sem você.
(um pouco, todo dia).

Você aqui, sempre fazendo ausência.
(um tanto, algum dia).

sábado, 30 de janeiro de 2016

A história da mulher que nasceu do girassol.

 Essa é uma história que começou antes do tempo do relógio, quando o tempo era contado apenas pelas folhas que caíam das árvores, ou pelo movimento das águas que circulavam entre a terra e o céu. Essa história é a história de uma mulher, que nasceu antes da maçã e que não saiu da costela de Adão, mas de dentro de um girassol. Pequena e quente, ela dormia enquanto a imensa flor girava em busca dos raios da grande estrela. “Ai, que sono!” dizia a mulher-menina, dentro da sua flor amarela, ainda sem querer nascer. E quando vinha a noite, o girassol fechava suas pétalas, escondendo seu tesouro da lua curiosa. “Ei, girassol: me mostre o que guarda aí”, dizia a lua com um meio sorriso; “guardo um segredo de vida”, respondia o girassol, cuidadoso. E no eterno ciclo de amanhecer – entardecer – anoitecer, a mulher se fez e nasceu, escorregou pelas pétalas do girassol e tocou pela primeira vez o chão, que a segurou pelo resto dos tempos. Ao anoitecer, a lua veio conhecer o segredo há tanto tempo guardado, e se encantou: prometeu à mulher que dançaria com ela pela eternidade, e é por isso que até hoje a lua baila no céu. A mulher, então, nascida do girassol agora girava também a lua, e sua presença na terra movimentava o céu, controlando o nascer e o morrer dos dias. Com suas mãos, fez nascer as sementes que fizeram alimento, e das suas lágrimas, a água que lavou o chão e as dores de todos os seres. Dizem que em outros campos, outros girassóis cuidam de outros bebês-meninas, mas tudo em segredo. E que a lua, silenciosa, some no céu quando visita outros berçários. Mistérios de antes do tempo do relógio, a voz da mulher que canta e encanta com um sopro de vida a força da natureza, conta essa história que fala de mim e de você.




Esta história faz parte do repertório do Grupo Pontos de Fiandeiras - grupo de Teatro e Pesquisa no ABC Paulista.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Entardecer

Brincadeira de rua – tempo claro e ensolarado da vida, o não-tempo, o existir simples: coisas que na memória se pintam com aquarela, cores primárias. Era assim, férias, dias eternos e sem relógio: bicicleta, corrida, bola, cenas de ação e perigo, tijolo escrevendo na calçada. Eu era da turma dos mais velhos, mas não queria: fazia de conta que o corpo não mudava e que os chamados da vida não eram pra mim. Um dia, uma carta. Uma rede de mãos sujas de terra transportou a revelação do amor que bateu em minha porta sem que eu pudesse abrir. Papel de caderno rasgado e o inesquecível erro de português: “você quer namorar com migo?”. Tremedeira, vaidade, raiva: ele tinha estragado tudo. Naquele dia não saí para brincar. Olhei pela janela e já era noite, meu segredo revelado: estava crescida então.