É sabido que
madeira verde resiste ao fogo, cospe sua seiva em espuma até o fim. O velho
cabideiro, recostado no quarto escuro, também sabe e, se ali ainda está, é mais
por esquecimento que por necessidade. Pudesse ele ir ao fogo, esgotaria-se em
minutos. Em sua memória penduram-se apenas três chapéus: homens da força, da
política, da genealogia orgulhosa. Somente para estes houve espelho, como um
quadro que refletia o mesmo rosto, no passar dos anos. Houve também aquele que
não se soube o nome, o doente, o de se esconder – pendurado em um nome de
família que não lhe servia de nada. Das mulheres, duas. Um gancho quebrado nos
dirá de alguma Maria, corpo doído, mãe sem rosto: apenas organizando bengalas.
Ana foi quem abriu o guarda-chuva e saiu, pregos enferrujados que atravessam o
corpo do velho móvel, empoeirado como qualquer outono. Lá fora, outras folhas
caem, indiferentes. Cobrem segredos que fizeram longo caminho de passos sobre o
assoalho.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Mortadela com Guaraná
Minha tia
Fátima faleceu um ano antes do meu nascimento. Dela, conheço os olhos vesgos
por fotografias, corpo magro, doente desde criança, histórias dos outros –
viveu certa da morte. Nela, reconheço hábitos. Em minha casa é comum bananas na
fruteira, apenas, como era na casa da minha mãe, porque assim foi na casa da
minha avó: de bananas Fátima não gostava, então podiam comer sem que nela se
fizesse vontade. Nos últimos dias de vida, internada pela insuficiência renal
crônica, ela mentiu à minha mãe dizendo que o médico havia autorizado o lanche
de mortadela com guaraná – atendida em seu pedido último, ritualizou para
sempre os nossos lanches de sexta-feira, que misteriosamente ganharam o sabor
de outra vida.
Balão
Foi ontem, no
tempo da criatividade, e há alguns anos, no tempo do relógio, que eu menina sonhava
viajar num balão, subir indefinidamente pelas nuvens até bater no teto do céu.
Pensava, eu, se o teto do céu era de madeira ou de telhas de barro. E pensava,
ainda, se algo haveria para além do teto celeste: curiosidades que inquietavam
minha pouca existência e me levavam ao desejo de desligar os pensamentos.
Pronto, algo novo despertava meu interesse: como faria para desligar meus
pensamentos? Seria possível encontrar em algum lugar de mim um botão? E
descobri que o esforço para não pensar em nada era muito maior, então voltava
pera meu balão e viajava no espaço-tempo dos grandes mistérios da humanidade: a
luz, a chuva, as estrelas e a lua, sempre ali pendurada no teto do céu.
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