sábado, 27 de dezembro de 2014

Tempo

tempo: construtor e dinamite
pó que se mistura ao vento
sacode a saia das mulheres
seca o cabelo do menino que entrou no rio
leva pra longe o pensamento que virou palavra
e os instantes do amor que existiu, só ali,
naquele minúsculo espaço da bolha de sabão que ninguém viu
tempo
rabisca suas linhas pela pele
dobra a coluna do homem que era forte e deus
faz da semente a mesa onde se alimenta família
faz do alimento o húmus que envolve a semente
tempo
templo do ciclo de vida no piscar de olhos
no perdão
na descoberta
nas roupas e risos que mudam como folhas que caem
na agitação do erro
na imensidade do grão.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ciranda

compasso da vida de toda gente
também você e eu, meu pequeno amor
nessas voltas e voltas e meias
me escapou a sua mão
e nossos cacos se espalharam na ciranda da cidade
como luzes de festa piscando
e é até bonito ver o que estava na pedra bruta e não percebemos
pedra da cor do horizonte: seus olhos - casa
caminho descalça sobre as telhas partidas do nosso frágil amor
diga versos, se quiser
mas que sejam bem bonitos
e depois, sem adeus,
por favor,
vá embora.

Névoas

São como fardos de névoa: imagens, palavras, lembranças, toque
tudo se funde numa branquidão de alma
quando todas as ruas ficam cada vez mais cinzas
e a fumaça turva os olhos em despedida.

Um cão de dentes enormes engoliu o gatinho amarelo
diante dos olhos do menino que pensou: a noite engoliu o sol
e tamanho foi o susto que a criança cresceu e não aprendeu ser feliz.

Mas guardo, menino, seu medo em minhas mãos
seu medo ainda é pedra preciosa enquanto a indiferença se faz tão concreta em meu caminho
é um elo de esperança e não sei se você pode entender
mas te digo: sobre a minha esperança só eu posso escolher, apenas eu e todos os desejos do meu coração: não me diga nunca mais para esquecer.