segunda-feira, 27 de maio de 2013

Prece número um.

Quero a paz
do meu espírito vestido para festa
quero amar com liberdade
e felicidade, sim, neste mundo
quero voz limpa
canto com a multidão
e vaso de flor cultivado na janela
quero me despir da dor
e da injusta sensação
de que a vida fere sem qualquer piedade
quero transcender minha intimidade
para além da sua incorrigível distração
onde bandeira branca assuma trégua
e aquarela desenhe novo brasão.

domingo, 26 de maio de 2013

Odisseia

Sou Penélope,
aguardo o regresso de Ulisses
cultivando verdades inconciliáveis
e tecendo manto fúnebre
para os desejos que afloram e despedaçam
ante a fúria do imenso olho do Ciclope.
Sou Penélope,
lançada nesta desconhecida e reconhecida Ítaca
desfazendo a trama da espera
refazendo a trama do encontro
desfeita pelo movimento das ondas de um mar distante.
Sou eu o mesmo fio que eu tecia
antes ficar, antes partir, nessa odisseia do lado de mim.
Quiseram os deuses que fosse assim?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fim

dia difícil
desses em que o coração pena
e pula
sem vestígio de piedade
apenas oco 
pedindo alívio e socorro para o teu abraço
pedindo chuva
pra acalmar a seca de dentro e infiltrar nas rachaduras desse solo
gasto em tantos porquês nessa vida descabida,
que acabam em toda e qualquer espécie de morte
e registram seus desenhos na lembrança
pálida,
cálida
de outros dias, em outras vozes, por tantos lugares
que sussurram em meu ouvido histórias de breve fim.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Movimento

Rotineiramente rodopiava
em sua caixinha de música
a bailarina
cheia de vida, a bela senhora
ciente do seu dever
de graça e perfeição
acompanhada pelos olhos do menino
olhares de infindáveis perguntas
e despropositado querer bem.

Assim viviam
a bailarina e o menino
um conto de amor pueril
despetalando cada minuto do som
que unificava seus mundos tão distantes.

Aproximou-se sorrateiramente o Tempo
com braços abertos
oferecendo ao menino caminho
que aceitou, crescendo,
enquanto girava a distante bailarina
buscando em cada volta encontrar a estrada
por onde o Tempo partia o seu amor.

Saltou a bailarina
da sua confortável dança,
ousando pedir ao Tempo que também lhe oferecesse caminhar
conheceu assim movimentos que não sabia acompanhar
dança que se chamava mudança
e outros pequenos passos chamados transformação.

A bailarina teve medo das pernas que caminhavam
e perguntava - deus, posso voltar?
e quando não suportou a noite que firmava
deus lhe ofereceu mãos de homem 
a lhe sustentarem pelo ar
não sabia aonde seria levada
e se sentia envergonhada pelo caminho que não ousara realizar
acolhida em mãos frias que lhe transportavam 
dormiu e sonhou com o Tempo,
que lhe dizia com a mesma voz - cuidado, coragem
o mundo gira com a mesma velocidade da sua caixa, bailarina!

Quando abriu-se o dia
estava em seu sempre lugar
e de frente aos seus olhos, os olhos do menino
que com mãos de homem davam corda ao seu dançar
lentamente deslizando 
aceitou com justiça e respeito a oferta do Tempo 
e em cada nova volta seus olhos fixavam compreensão
cada conhecida nota vibrava diferente em seu coração
e infindáveis respostas lhe eram trazidas pelos olhos do eterno menino.

Os dois aprenderam então,
que amor também é razão
diferentes trajetórias
dão-se as mãos
a bailarina girando, feliz
em cada movimento de chegar e partir
e o menino - homem feliz
em cada retorno, chegar, partir.

(espaço de dentro, infinitamente maior que o de fora - aventura solitária do descobrir e o grato desejo do partilhar).

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Encontro

em algum lugar da semente
pulsa o desejo em germinar
na sua terra
que também é a minha terra
que é a terra de todos nós
porque sou de lugar nenhum
mas sou em qualquer lugar
e que seja em campo sagrado
este nosso encontro
porque em algum lugar da semente
pulsa a certeza da morte
e reencontra nesta mesma terra
braços acolhedores para o que um dia foi lançado ao céu
eterna regeneração de profundas raízes que habitam e conectam esse campo fértil
de ideias e sentimentos
sensações
intuições
nossa terra prometida quer se dar à semente
que traz em si o gosto do fruto futuro
e a certeza da sombra onde descansam todos os sonhos do mundo.