É sabido que
madeira verde resiste ao fogo, cospe sua seiva em espuma até o fim. O velho
cabideiro, recostado no quarto escuro, também sabe e, se ali ainda está, é mais
por esquecimento que por necessidade. Pudesse ele ir ao fogo, esgotaria-se em
minutos. Em sua memória penduram-se apenas três chapéus: homens da força, da
política, da genealogia orgulhosa. Somente para estes houve espelho, como um
quadro que refletia o mesmo rosto, no passar dos anos. Houve também aquele que
não se soube o nome, o doente, o de se esconder – pendurado em um nome de
família que não lhe servia de nada. Das mulheres, duas. Um gancho quebrado nos
dirá de alguma Maria, corpo doído, mãe sem rosto: apenas organizando bengalas.
Ana foi quem abriu o guarda-chuva e saiu, pregos enferrujados que atravessam o
corpo do velho móvel, empoeirado como qualquer outono. Lá fora, outras folhas
caem, indiferentes. Cobrem segredos que fizeram longo caminho de passos sobre o
assoalho.
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