quinta-feira, 23 de julho de 2015

Dos Mortos

É sabido que madeira verde resiste ao fogo, cospe sua seiva em espuma até o fim. O velho cabideiro, recostado no quarto escuro, também sabe e, se ali ainda está, é mais por esquecimento que por necessidade. Pudesse ele ir ao fogo, esgotaria-se em minutos. Em sua memória penduram-se apenas três chapéus: homens da força, da política, da genealogia orgulhosa. Somente para estes houve espelho, como um quadro que refletia o mesmo rosto, no passar dos anos. Houve também aquele que não se soube o nome, o doente, o de se esconder – pendurado em um nome de família que não lhe servia de nada. Das mulheres, duas. Um gancho quebrado nos dirá de alguma Maria, corpo doído, mãe sem rosto: apenas organizando bengalas. Ana foi quem abriu o guarda-chuva e saiu, pregos enferrujados que atravessam o corpo do velho móvel, empoeirado como qualquer outono. Lá fora, outras folhas caem, indiferentes. Cobrem segredos que fizeram longo caminho de passos sobre o assoalho.


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