Essa é uma história que começou antes do tempo
do relógio, quando o tempo era contado apenas pelas folhas que caíam das
árvores, ou pelo movimento das águas que circulavam entre a terra e o céu. Essa
história é a história de uma mulher, que nasceu antes da maçã e que não saiu da
costela de Adão, mas de dentro de um girassol. Pequena e quente, ela dormia
enquanto a imensa flor girava em busca dos raios da grande estrela. “Ai, que
sono!” dizia a mulher-menina, dentro da sua flor amarela, ainda sem querer
nascer. E quando vinha a noite, o girassol fechava suas pétalas, escondendo seu
tesouro da lua curiosa. “Ei, girassol: me mostre o que guarda aí”, dizia a lua
com um meio sorriso; “guardo um segredo de vida”, respondia o girassol,
cuidadoso. E no eterno ciclo de amanhecer – entardecer – anoitecer, a mulher se
fez e nasceu, escorregou pelas pétalas do girassol e tocou pela primeira vez o
chão, que a segurou pelo resto dos tempos. Ao anoitecer, a lua veio conhecer o segredo
há tanto tempo guardado, e se encantou: prometeu à mulher que dançaria com ela
pela eternidade, e é por isso que até hoje a lua baila no céu. A mulher, então,
nascida do girassol agora girava também a lua, e sua presença na terra
movimentava o céu, controlando o nascer e o morrer dos dias. Com suas mãos, fez
nascer as sementes que fizeram alimento, e das suas lágrimas, a água que lavou
o chão e as dores de todos os seres. Dizem que em outros campos, outros
girassóis cuidam de outros bebês-meninas, mas tudo em segredo. E que a lua,
silenciosa, some no céu quando visita outros berçários. Mistérios de antes do
tempo do relógio, a voz da mulher que canta e encanta com um sopro de vida a
força da natureza, conta essa história que fala de mim e de você.
Esta história faz parte do repertório do Grupo Pontos de Fiandeiras - grupo de Teatro e Pesquisa no ABC Paulista.