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domingo, 27 de março de 2016

Eva

Ela tinha algo como um animal
enjaulado e indócil,
mas de tanto doer a cela do coração
abriu as portas.

O animal, que preso gritava
agora a defende.

Colocou-se a frente das pedras enviadas à Madalena
e recusou a oferta:
"Não gosto de maçã, prefiro outra".

E riram, a mulher e a serpente.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Partida

Amor, sim. Mas te deixo aqui.
Corto as linhas das minhas mãos
e desfaço as tranças do cabelo.
Será assim:

um rio que corre

um pássaro que voa

constelações

e mistério

e saudade (sim).

Seja um tanto de esquecimento
que renove o ar
e expulse o líquido já velho
das espumas dos meus pulmões.

Mais brisa, menos brasa: de agora em diante, meu amor: envelhecer.

Envelhecer

O corpo atravessa o tempo
rugas - riscos - rusgas
sobre um mapa de pele.

Rios de sonhos
Veredas da sobrevivência
Planícies de onde se vê outro horizonte,
invisível para a juventude dos olhos.

O menino que sonhava ser bailarino
pegou em armas
mas dança dentro do frágil coração.

Vestido branco
rodopiando
lembra de quando nasceu algodão.

Acessos

Entre nós tanto mar
                   tanto abismo
                   tanta selva

Caminhos de areia que escorrem na ampulheta.

Quantas serão as distâncias
no estreito eu - tempo - você?
Quanto se podem alargar
                   as ruas
                   as avenidas
                   os prédios
                   os automóveis
                   ?

Contudo, estamos debaixo do mesmo, e ainda, vermelho céu.

Vou - me fazendo sem você.
(um pouco, todo dia).

Você aqui, sempre fazendo ausência.
(um tanto, algum dia).

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Amargo é o gosto do pó:
o mesmo pó
que obstrui as narinas
arranha as articulações
e suja as vidraças das retinas.
Amargo, como todo bom remédio.
Ilusão é isso, ilusão é um sonho que vira pó.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Guerra

Sou dragão
quando Jorge risca com sua lança
tatuagens de fogo pelo avesso da minha pele

Sou cavalo
disparo sobre quatro patas
espalhando a areia de um deserto que está em qualquer parte do meu interior

Sou capa
e abrigo tesouros
que são de qualquer um:
medo alegria medo

Sou lança
e me lanço
sou capa e sou cavalo.

Sou dragão.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

sexta-feira, 3 de abril de 2015

vermelho cor de abril

abril
aberto está
dentro do peito
e um céu de terra vermelha nos cobre 
(quanta coisa cabe no espaço do céu)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Despedida

Foi quando as folhas da alface, rasgadas, tornaram-se pequenas gaivotas verdes em suas mãos: deixa voar, deixa voar. Tinha então compreendido o adeus.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Tempo

tempo: construtor e dinamite
pó que se mistura ao vento
sacode a saia das mulheres
seca o cabelo do menino que entrou no rio
leva pra longe o pensamento que virou palavra
e os instantes do amor que existiu, só ali,
naquele minúsculo espaço da bolha de sabão que ninguém viu
tempo
rabisca suas linhas pela pele
dobra a coluna do homem que era forte e deus
faz da semente a mesa onde se alimenta família
faz do alimento o húmus que envolve a semente
tempo
templo do ciclo de vida no piscar de olhos
no perdão
na descoberta
nas roupas e risos que mudam como folhas que caem
na agitação do erro
na imensidade do grão.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ciranda

compasso da vida de toda gente
também você e eu, meu pequeno amor
nessas voltas e voltas e meias
me escapou a sua mão
e nossos cacos se espalharam na ciranda da cidade
como luzes de festa piscando
e é até bonito ver o que estava na pedra bruta e não percebemos
pedra da cor do horizonte: seus olhos - casa
caminho descalça sobre as telhas partidas do nosso frágil amor
diga versos, se quiser
mas que sejam bem bonitos
e depois, sem adeus,
por favor,
vá embora.

Névoas

São como fardos de névoa: imagens, palavras, lembranças, toque
tudo se funde numa branquidão de alma
quando todas as ruas ficam cada vez mais cinzas
e a fumaça turva os olhos em despedida.

Um cão de dentes enormes engoliu o gatinho amarelo
diante dos olhos do menino que pensou: a noite engoliu o sol
e tamanho foi o susto que a criança cresceu e não aprendeu ser feliz.

Mas guardo, menino, seu medo em minhas mãos
seu medo ainda é pedra preciosa enquanto a indiferença se faz tão concreta em meu caminho
é um elo de esperança e não sei se você pode entender
mas te digo: sobre a minha esperança só eu posso escolher, apenas eu e todos os desejos do meu coração: não me diga nunca mais para esquecer.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Fuligem

Das tantas coisas e formas que habitam universo de sonhos, procuro caneta que escreva com tinta de alegre verdade. Se a tristeza serve ainda aos pratos da fome, hoje cá me parece indigesta, pois que a beleza espera por olhos de compreensão e a dúvida desafia o espírito a buscar em si o que achava antes estar fora. Quero partir, mas me quero inteira.

sábado, 29 de março de 2014

Prece número dois.

entre a memória e a esperança
existe um hoje
incerto no fazer
esperto no sonhar
passos frágeis desejam flutuar
compor com notas alegres as escalas do ser
aprender
renunciar
descanso para os olhos antes do anoitecer
água lava minha alma
e seja assim:
paz, luz, pão, flor.




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Desamparo


a vida inteira do nosso amor
passou diante dos meus olhos
anunciando sua morte
como um clarão

tudo no mundo vai certo
menos eu
se hoje você mora no meu silêncio
amanhã, talvez, te expulse em canção


sábado, 11 de janeiro de 2014

Barco

Navego em meu barquinho de papel: tantas são as paisagens desenhadas na memória, de tão cansadas parecem rabiscos de uma cor só -- tão só quanto este pensamento à deriva, sem porto, sem ponto.
Soubesse fazer da solidão poesia, naufragava este barquinho sem piedade, mas a poesia passa por minha solidão como brisa leve e embala as águas por onde flutuo sem precisão. 
Respiro fundo, fecho meus olhos, e uma espécie de saudade muda me convida a permitir: cada vez mais longe, cada vez mais fundo, e vou, cada vez mais longe, cada vez mais fundo, vou.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Muro

construído pedra a pedra este muro entre nós
com cada pedaço do coração que foi caindo pelo caminho
com todas as dúvidas
com todas as dívidas
cimentadas pela comum inabilidade em ser feliz
a cada novo horizonte por onde cresce esta muralha
prendo-me ao último olhar lançado
não entendi se era grito por socorro
ou pedido por cuidado
mas foi silêncio e despedida
tantas são as palavras que poderiam ainda ser ditas,
mas desencorajadas assustam-se no fundo da alma
desbotam, esquecendo pouco a pouco.

sei que se um muro existe vizinhos somos (sussurro que mitiga a dor)
reacende no coração pequenina lâmpada: que a vida nos traga com gentileza infiltrações e rachaduras
para que saibamos com verdade responder: QUEM SEREMOS QUANDO ESTE MURO RUIR?

sábado, 7 de dezembro de 2013

Azul

corria para seu certo futuro incerto
mãos estendidas para o velho sonho acalentado no peito
aquele que todo mundo um dia alimentou e guardou segredo
mas de tantas as esquinas que existem nessa vida
pensou que o sonho não era bom
e cansada andou apenas por linhas retas
ofertando as mãos apenas ao que seus olhos podiam ver
e tudo foi se tornando cada vez mais coerente, previsível, seguro e atestado com todas as garantias,
se não de felicidade,
de estabilidade contra qualquer loucura do coração
porque ninguém está obrigado a ver o outro lado das coisas
ainda mais quando do lado de cá faz uma sombra até que fresca.

(Só não se esqueça meu bem: o tempo tem das suas traições e aguarda preparando tempestade - no exato dia em que a sombrinha não estiver na bolsa cairá do céu uma chuva de tinta azul, inundando e desnudando tua alma em desesperada saudade).

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fragilidade

Fundo do poço de minha água
salto neste abismo de alma
vislumbro cores e dores
que pintei e bordei
com próprias mãos
cada pensamento partido de mim
sustenta rede tênue que embala meu sono cansado
e se eu ainda puder dizer algo: esta tinta vermelha em seu cabelo cansa e despedaça
falsa como o meu convite para a guerra
surda para qualquer perdão.

"Como sabia bem tudo isto, e dei-me a teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí." - Cecilia Meirelles

domingo, 22 de setembro de 2013

Amores suspensos

despede-se do inverno a mocinha de um romance barato
daquele que enche os corações de ansiedade, angústia e dor por um final feliz
que se encerra junto às folhas já perdidas do outono e trinca as paredes do miocárdio congelado
saudando a primavera que se aproxima e sorri,
estendendo suas dóceis e frágeis mãos
convidando ao sol que ainda tímido bate nas vidraças dos tristes olhos
amores suspensos nos galhos das árvores como frutos
que oferecidos confundem as mentes em prazer e pecado
e a terra satisfeita dá a luz ao mundo
regenerando em seu ventre acolhida para nova semente.