Brincadeira de
rua – tempo claro e ensolarado da vida, o não-tempo, o existir simples: coisas
que na memória se pintam com aquarela, cores primárias. Era assim, férias, dias
eternos e sem relógio: bicicleta, corrida, bola, cenas de ação e perigo, tijolo
escrevendo na calçada. Eu era da turma dos mais velhos, mas não queria: fazia
de conta que o corpo não mudava e que os chamados da vida não eram pra mim. Um
dia, uma carta. Uma rede de mãos sujas de terra transportou a revelação do amor
que bateu em minha porta sem que eu pudesse abrir. Papel de caderno rasgado e o
inesquecível erro de português: “você quer namorar com migo?”. Tremedeira,
vaidade, raiva: ele tinha estragado tudo. Naquele dia não saí para brincar.
Olhei pela janela e já era noite, meu segredo revelado: estava crescida então.